CRUZEIRO DO SUL
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27 de abril de 2026
Decisão de Anne Hathaway reacende debate sobre padrões de beleza e saúde mental
Docente de psicologia analisa efeitos da cultura pop na construção da autoestima e da imagem corporal
A decisão da atriz Anne Hathaway de evitar a representação de magreza extrema na produção de O Diabo Veste Prada 2 reacendeu o debate sobre o papel do cinema na construção de padrões de beleza e seus impactos na saúde mental. O tema ganha força em um contexto em que a cultura pop segue como uma das principais referências na forma como indivíduos constroem sua relação com o próprio corpo.
Segundo o professor Alisson Guiotto, docente de Psicologia da Universidade Cruzeiro do Sul, o corpo ocupa um lugar central na construção da identidade e da autoestima. “Durante muitos anos, a mídia reforçou um estereótipo de ‘corpo perfeito’ como padrão a ser seguido. No entanto, a sociedade é composta por uma grande diversidade de corpos, e estabelecer um único modelo como ideal é uma construção limitada e, muitas vezes, injusta”, afirma. Para ele, quando figuras públicas passam a questionar esses padrões, abre-se espaço para reflexões mais amplas sobre pertencimento, aceitação e saúde mental.
Nesse contexto, o especialista destaca que produções audiovisuais não apenas refletem a realidade, mas também atuam ativamente na construção de referências sociais. Ao associar determinados tipos de corpo a sucesso, admiração e reconhecimento, filmes e séries contribuem para consolidar padrões que passam a ser interpretados como desejáveis. “Com o tempo, essas imagens deixam de ser apenas representações e passam a funcionar como parâmetros do que é visto como ‘normal’ ou ‘ideal’, influenciando a forma como as pessoas avaliam a si mesmas e aos outros”, explica.
Do ponto de vista psicológico, um dos principais mecanismos envolvidos nesse processo é a comparação social. “As pessoas tendem naturalmente a se comparar com outras para avaliar seu próprio valor. Quando essa comparação ocorre com padrões idealizados ou pouco realistas, pode surgir uma sensação de inadequação ou insuficiência”, diz. Ele acrescenta que a repetição desses modelos gera ainda o chamado reforço simbólico, no qual o público internaliza, de maneira muitas vezes inconsciente, a associação entre determinados corpos e valor social.
O impacto tende a ser ainda mais significativo entre adolescentes e jovens adultos, fase marcada pela construção da identidade e por uma maior sensibilidade à aprovação social. Nesse período, a exposição constante a padrões estéticos rígidos pode intensificar processos de comparação e influenciar diretamente a percepção corporal e a autoestima.
Para o professor, movimentos como o protagonizado por Hathaway indicam uma mudança importante, ainda que gradual, na forma como o tema vem sendo tratado dentro da indústria cultural. “Quando essas discussões ganham visibilidade, elas contribuem para ampliar o repertório de representações e para promover uma relação mais saudável e realista com o corpo”, finaliza.