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10 de junho de 2026
Empresas deveriam investir mais na formação de mestres e doutores para impulsionar inovação, avalia pesquisadora
Especialista em direito do trabalho e relações sociais defende que a qualificação profissional deve ser uma responsabilidade compartilhada
O Brasil ampliou significativamente o número de mestres e doutores nas últimas duas décadas, mas ainda enfrenta desafios para ampliar a formação de pesquisadores e profissionais altamente qualificados. Enquanto o debate costuma se concentrar nos incentivos públicos e no esforço individual para alcançar esses títulos, uma discussão ganha espaço: qual é o papel das empresas nesse processo?
Para Maria Cecília Lemos, docente e pesquisadora do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito das Relações Sociais e Trabalhistas do UDF, a qualificação profissional não deve ser encarada apenas como uma responsabilidade do trabalhador, mas como um investimento estratégico para as organizações e para o desenvolvimento do país.
“Hoje, o sistema coloca sobre o indivíduo toda a responsabilidade de se formar, mas a capacitação que ele adquire é colocada a serviço do mercado. Se as empresas buscam profissionais altamente qualificados, por que não investem também nessa formação?”, questiona.
Levantamento do Ministério da Educação (MEC) e da Capes aponta que o número de doutores formados no Brasil cresceu 271% entre 2001 e 2021, enquanto o de mestres aumentou 210% no mesmo período. Ainda assim, estudos recentes mostram que o país segue abaixo da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no ritmo de crescimento anual desses títulos, cenário que pode comprometer a capacidade nacional de inovação e competitividade.
Na avaliação da pesquisadora, empresas que apoiam a formação de seus profissionais não apenas contribuem para o desenvolvimento científico, como também fortalecem seus próprios resultados. “Um profissional com mestrado ou doutorado traz novas perspectivas, desenvolve soluções, amplia sua capacidade analítica e agrega conhecimento para toda a organização. O benefício não é apenas individual, mas coletivo e institucional”, afirma.
Segundo ela, setores como os grandes escritórios de advocacia já costumam investir na qualificação dos advogados como estratégia de fortalecimento das equipes de trabalho. Especializações e cursos de pós-graduação são financiados pelas próprias organizações, que reconhecem o retorno desse investimento na qualidade dos serviços prestados.
Maria Cecília Lemos ressalta que mecanismos jurídicos permitem às empresas apoiarem financeiramente a formação de seus funcionários com segurança, por meio de cláusulas de permanência ou de fidelidade contratual, garantindo que o conhecimento adquirido seja revertido em benefício da própria organização. “Se a empresa facilita que o trabalhador estude e se desenvolva, ela ganha um profissional mais preparado, mais comprometido e com maior capacidade de inovar. É uma relação em que todos ganham.”
Para a pesquisadora, ampliar o número de mestres e doutores no Brasil exige uma mudança de perspectiva. Em vez de tratar a qualificação como uma escolha exclusivamente individual, ela defende que governo, universidades, setor produtivo e sociedade compartilhem essa responsabilidade.
“Vivemos em uma sociedade que exige cada vez mais qualificação, mas pouco se discute quem deve financiar esse processo. A formação de profissionais altamente capacitados interessa ao trabalhador, interessa ao mercado e interessa ao país. Por isso, esse desafio precisa ser coletivo”, finaliza.