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1 de junho de 2026
Nem toda cientista usa jaleco: estudo da Unifran questiona imagens sobre maternidade e ciência nas redes sociais
Pesquisa identificou que, mesmo em publicações que valorizam mães pesquisadoras, a figura da cientista continua associada a laboratórios
Nem toda cientista usa jaleco, trabalha em laboratório ou passa os dias diante de um microscópio. Mas é justamente essa imagem que continua predominando nas redes sociais quando o assunto é maternidade e ciência. Um estudo desenvolvido pela Universidade de Franca (Unifran) identificou que, mesmo em publicações que buscam valorizar mães pesquisadoras, a figura da cientista permanece fortemente associada às áreas STEM — sigla para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática — reforçando uma memória social que tende a reconhecer como ciência apenas determinados campos do conhecimento.
Publicado na Revista Latinoamericana de Estudios del Discurso (RALED), o artigo “Cientista é a mãe: redes sociais e efeitos de memória sobre o trabalho científico da mulher mãe” é assinado pela professora Luciana Carmona Garcia, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Unifran, em coautoria com a pesquisadora Lígia Mara Boin Menossi de Araujo, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
A pesquisa analisou publicações compartilhadas no Instagram por instituições acadêmicas, grupos de pesquisa e organizações ligadas à divulgação científica. O objetivo foi compreender como os discursos sobre maternidade e produção científica são construídos e compartilhados nas redes sociais.
Entre os exemplos analisados, as pesquisadoras encontraram postagens que retratam mães cientistas diante de microscópios, em laboratórios ou cercadas por símbolos tradicionalmente associados à ciência, como átomos, tubos de ensaio e jalecos. Em uma das imagens estudadas, uma pesquisadora aparece trabalhando em um microscópio enquanto carrega o filho nas costas. Em outra, uma mulher é representada dividida ao meio: de um lado, mãe segurando um bebê; de outro, cientista usando jaleco e manipulando materiais de laboratório.
Segundo Luciana Carmona Garcia, essas representações revelam mais do que escolhas visuais.“Nosso estudo mostra que existe uma memória social muito forte que associa ciência às áreas STEM. Mesmo quando as postagens têm como objetivo valorizar a maternidade na carreira acadêmica, a figura da cientista continua sendo representada por símbolos ligados ao laboratório, como se esse fosse o principal — ou até o único — espaço legítimo da produção científica.”
Outro exemplo analisado pelas autoras utiliza a imagem de Marie Curie acompanhada da frase: “Embora ela fosse implacável em suas atividades científicas, também era dedicada às filhas”. Para as pesquisadoras, a construção da frase evidencia um imaginário social que ainda enxerga maternidade e excelência profissional como dimensões em conflito, como se as mulheres precisassem escolher entre uma ou outra.
A pesquisa argumenta que esse tipo de representação produz efeitos que vão além da maternidade. Ao reforçar a associação entre ciência e determinadas áreas do conhecimento, outras formas de produção científica acabam sendo menos reconhecidas socialmente.
“Quando a sociedade passa a enxergar ciência apenas a partir de determinados símbolos, algumas áreas ganham mais legitimidade do que outras. A consequência é que pesquisadoras das humanidades, por exemplo, muitas vezes deixam de ser reconhecidas como cientistas, apesar de produzirem conhecimento científico tão relevante quanto o desenvolvido em laboratórios”, afirma a docente.
Ao mesmo tempo, o estudo identifica movimentos de transformação. Entre os materiais analisados, há postagens que retratam pesquisadoras trabalhando em casa, conciliando a produção acadêmica com o cuidado dos filhos e apresentando outras formas de exercer a atividade científica. Para as autoras, essas representações ajudam a questionar estereótipos consolidados e ampliam o entendimento sobre quem produz ciência.
“O debate não é apenas sobre maternidade. É também sobre visibilidade, reconhecimento e legitimidade. Quando ampliamos a imagem do que é ser cientista, ampliamos também a compreensão sobre quem pode ocupar esse lugar”, conclui Luciana.
A publicação reforça a atuação da Unifran em pesquisas voltadas aos estudos de gênero, linguagem e práticas discursivas. Luciana Carmona Garcia lidera desde 2016 o GTEDI (Grupo de Estudos do Texto e do Discurso), grupo que desenvolve investigações sobre maternidade, gênero e minorias.