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16 de dezembro de 2020
Estudos recentes têm indicado, entre os efeitos para a saúde mental provocados pelo período de quarentena, o aumento significativo de ansiedade, depressão, estresse, raiva, insônia, desesperança e tristeza. Os dados apontam aumento de 90,5% de depressão na população brasileira, além de aumentos de 71% de ansiedade e 40% de estresse. Fatores como qualidade da alimentação, atendimento psicológico e frequência de exercícios físicos influenciam diretamente os indicadores acima citados. Ter fator de risco percebido para Covid-19 está, igualmente, relacionado ao aumento de ansiedade e depressão.
O cenário de pandemia, com a consequente necessidade de isolamento social, produziu uma ruptura no que poderíamos chamar de vida cotidiana, de curso normal de nossas vidas. A retomada das atividades – assim como as implicações dessa retomada do ponto de vista da saúde mental – passa diretamente pela forma como iremos nos relacionar com essa vivência traumática. O trauma é compreendido como algo que escapa de nossa capacidade imediata de simbolização, um acontecimento frente ao qual nossas respostas usuais não funcionam, exigindo de nós uma elaboração subjetiva.
Quando algo da ordem do traumático irrompe em nossas vidas, sentimos um empuxo à narratividade, é necessário falar ao outro, dizer o que nos aconteceu. A narratividade, então, torna-se condição de possibilidade para a elaboração deste trauma, caminho privilegiado para a transformação de uma vivência traumática em uma experiência que encontra borda na linguagem. No entanto, o contexto atual nos convoca a uma tarefa um tanto mais complexa, já que vivenciamos um trauma coletivo que exigirá, por sua vez, um trabalho coletivo de elaboração.
Esse momento de elaboração coletiva pode oferecer a oportunidade não exatamente de retornar à normalidade, mas de inventar uma nova. Tudo passará pela forma como iremos narrar e compartilhar essa experiência, possibilitando um redesenho de nosso tecido social. A reificação de uma discursividade hiper individualizante pode levar a um apagamento da dimensão compartilhada de nossas vidas, dificultando a tarefa de elaboração coletiva e apresentando, como consequência, um incremento de angústia e mal-estar que terá como efeito a multiplicação de sintomas ansiosos e depressivos, assim como uma precarização da vida.
Não obstante, a necessidade de apreciação do novo, imposto de forma disruptiva em rotinas pessoais, sociais e de trabalho, indicou a descoberta de novos espaços físicos e subjetivos: o canto da casa em que é possível tomar um pouco de sol, a leitura para a qual não havia tempo, novas disposições de móveis e o reencontro com objetos perdidos em meio à intensidade da rotina pode levar a uma descoberta fundamental: a sociabilidade, mais do que uma característica de nossa espécie, é condição estruturante de nossa subjetividade, nos constituímos enquanto sujeitos na relação com o outro.
A retomada rotina, assim como a produção de novas rotinas, deve passar, sobretudo, pela adesão a protocolos de cuidado, atenção às estratégias de contenção da disseminação do vírus, além da adoção de medidas indicadas pelas pesquisas e avanços científicos a respeito do tema. A fragilização coletiva colocada pela pandemia pode potencializar a retomada de laços afetivos, reposicionar o papel do cuidado do outro e do cuidado de si, tendo na solidariedade um catalisador de novos afetos.
A pandemia e o isolamento social, como acontecimentos isolados, não detêm qualquer função pedagógica ou enobrecedora dos afetos humanos e sociais. No entanto, o confronto com limites que nos humanizam, como a dor, o sofrimento e o desamparo, lembram que a dor do outro nos diz respeito e podem ser pontos de inflexão de nossos afetos, tendo na solidariedade, no acolhimento e no cuidado os nortes éticos produtores de novos cotidianos, novas relações e novas moradas subjetivas.
Eduardo Eggres, professor de Psicologia da FSG, e Mestre em Psicologia Social e Institucional.