CRUZEIRO DO SUL

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7 de novembro de 2019

Por que o índice de suicídio entre jovens e adolescentes negros cresceu nos últimos anos?

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Especialistas analisam impacto do racismo em níveis psicossociais.

Segundo dados divulgados recentemente pelo Ministério da Saúde, jovens e adolescentes negros possuem maior chances de cometer suicídio no Brasil[i]. Enquanto a taxa de mortalidade por suicídio entre jovens e adolescentes brancos permaneceu estável de 2012 a 2016, o número aumentou 12% entre a população negra com a mesma idade. 

O maior risco é entre jovens na faixa etária de 10 a 29 anos, sendo que em 2015, no Brasil, o suicídio foi a quarta causa de morte nessa mesma faixa etária, ficando atrás apenas de violência e acidente de trânsito. Os dados foram calculados a partir do Sistema de Informação sobre Mortalidade e, segundo o documento, o estigma em torno do suicídio pode ser ainda maior quando há questões raciais envolvidas.

De acordo com a professora e doutora em Psicologia da Saúde Regiane Ribeiro de Aquino Serralheiro, do Curso de Psicologia da Universidade Cruzeiro do Sul, os índices refletem a realidade dos jovens negros na atualidade. “Situações de racismo afetam a construção da subjetividade pois se trata de um ambiente em que o indivíduo sente que não pertence ao grupo ou que suas características são desvalorizadas e inferiorizadas. O racismo influencia ainda a compreensão de mundo e a subjetividade do indivíduo, por um lado a sociedade desconsidera seu impacto e, por outro, a população negra sofre suas consequências”, comenta.

Para Ana Flávia Costa Parenti, Coordenadora do curso de Psicologia da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) e especialista em comportamento do adolescente, o racismo tem grande impacto na formação da personalidade. “As vítimas de racismo, principalmente as crianças, acabam por acreditar que realmente sejam inferiores por algum motivo que elas desconhecem, e isso impacta no seu desenvolvimento cognitivo e, principalmente, nas relações sociais”, afirma. “Eles podem não acreditar em seu próprio desempenho ou capacidade e podem isolar-se socialmente ou manter relacionamentos amorosos abusivos, por não acreditarem que possam ser merecedores de atenção e carinho verdadeiros. O racismo leva o sujeito a acreditar que o que falam dele é verdade, e isso pode, com o tempo, ser incorporado na sua personalidade”.

De acordo com a professora Regiane Ribeiro, os pais precisam estar atentos às mudanças de comportamento dos jovens e adolescentes. “Há situações em que é possível reconhecer um pedido de ajuda. Mas, por ser um tabu, muitas vezes os familiares e amigos resistem a acreditar que o sofrimento é tão intenso, ou que aquela pessoa que tanto amam possa tentar algo contra si mesmo” comenta. “Mudanças de comportamento como o isolamento, manifestações do desejo de sumir, de que os outros seriam mais felizes se a pessoa não estivesse por lá, de que nada dá certo ou quando o indivíduo acredita que não faz nada direito, podem significar um pedido de ajuda” explica a especialista.

A professora Ana complementa e reforça que o auxílio de um especialista negro pode ajudar em situações como essa. “Alguém que viveu o preconceito na pele é capaz de entender essa questão mais facilmente. Ainda assim, qualquer profissional está treinado para exercer sua empatia e entender e discutir o preconceito racial. Os pais podem discutir essas opções com o jovem para que ele escolha o especialista com o qual ele se sinta mais à vontade para falar”, comenta.

Por fim, as especialistas alertam sobre a importância de uma rede de apoio: “é preciso encorajá-los a acreditar no seu próprio potencial e facilitar o acesso desse jovem a todo e qualquer espaço social e cultural. Além de incentivar a convivência com amigos e familiares negros que valorizem a cultura e a beleza negra e valorizem suas conquistas”, comenta Ana.

Para Regiane Ribeiro, “além das medidas legais, visto que racismo é crime, é importante reconhecer e legitimar o sofrimento, pois ainda se acredita que não há racismo no Brasil e, desta forma, há um silenciamento do sofrimento, questionando a percepção da vítima”, explica. “O racismo estrutural, presente em instituições e serviços também desconsideram esse sofrimento. Por isso, a rede de apoio, as rodas de conversa e o empoderamento da população negra, são formas importantes de resistência”, finaliza.


1 Referências:
Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros 2012 a 2016 – Ministério da Saúde. (Brasília/DF – 2018)  Disponível em: [i]http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/obitos_suicidio_adolescentes_negros_2012_2016.pdf

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