CRUZEIRO DO SUL
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11 de fevereiro de 2026
Trovões, vento e pânico: por que tantos cães sentem medo durante tempestades
Professor de medicina veterinária explica causas, sinais de alerta e erros comuns dos tutores diante da ansiedade durante temporais.
A chegada das chuvas de verão — realidade recorrente em grandes metrópoles como São Paulo — costuma trazer um problema para muitos tutores: cães que entram em pânico diante de trovões, ventos fortes e mudanças bruscas no ambiente. Tremores, tentativas de fuga, latidos incessantes e até comportamentos destrutivos não são “manha” nem desobediência, na verdade são respostas reais de medo e ansiedade, que podem ter origem genética, ambiental e até emocional.
Segundo Atílio Sersun Calefi, docente de Medicina Veterinária da Universidade Cruzeiro do Sul e biólogo, o medo, por si só, é um comportamento natural e necessário à sobrevivência. “O problema começa quando essa reação se torna exagerada e passa a interferir no bem-estar do animal e na convivência social. Aí falamos de um medo patológico”, explica. Algumas raças, por exemplo, têm maior sensibilidade auditiva, o que aumenta a percepção de ruídos e vibrações, tornando trovões e tempestades especialmente ameaçadores.
Além da predisposição genética, o histórico de vida do animal pesa muito. Cães que não foram expostos adequadamente a sons variados durante a fase de socialização — especialmente no primeiro ano de vida — podem interpretar trovões como estímulos novos e perigosos quando adultos. Há ainda os chamados traumas condicionados: experiências negativas associadas a barulhos altos, como gritos, punições ou situações de vulnerabilidade, podem fazer com que o animal passe a relacionar qualquer som intenso a dor ou ameaça. “O cão aprende a temer não só o som, mas tudo o que vem junto com ele”, afirma Calefi.
E não é apenas o barulho que desencadeia o medo. Tempestades envolvem uma combinação de fatores: vento, variações de luz, vibrações no solo, mudança de temperatura, sensação de falta de abrigo e até a expectativa de desconforto físico, como frio e chuva. “É um fenômeno multifatorial. O trovão funciona como um sinal de que outros estímulos desagradáveis estão por vir, e isso intensifica a resposta de ansiedade”, diz o professor. Em ambientes com mais de um animal, o comportamento também pode ser aprendido por observação: um cão muito assustado pode influenciar outro que antes não reagia daquela forma.
Os sinais mais comuns de estresse incluem aumento da frequência cardíaca e respiratória, agitação intensa ou busca por locais considerados seguros — geralmente cantos, áreas próximas a paredes ou móveis. Também são frequentes salivação excessiva, pupilas dilatadas, tremores, micção involuntária, vocalização persistente e comportamentos repetitivos, como andar de um lado para o outro. Em apartamentos, não é raro que o medo se manifeste na forma de destruição de objetos. “Muitos tutores interpretam isso como birra, mas na verdade é uma resposta ao estresse extremo”, ressalta Calefi.
Para casos recorrentes ou intensos, a orientação é procurar um médico-veterinário ou um profissional especializado em comportamento animal. Com avaliação adequada, é possível adotar estratégias seguras de manejo, enriquecimento ambiental e, quando necessário, tratamento específico, sempre com foco no bem-estar e na saúde emocional do cão.